Era dez e vinte e três da manhã, e ela abriu os olhos pela primeira vez naquele dia – mais tarde, naquele mesmo dia, se questionaria o porquê de tê-lo feito. A primeira coisa que viu foi o teto, branco. Não teve reação, apenas fechou os olhos novamente e quis voltar à sensação de conforto da qual o próprio corpo a privou com um simples movimento mecânico. Abriu os olhos e perdeu o chão – mas, naquele momento, nada disso passava pela sua cabeça.
Observou o teto por quinze segundos antes que qualquer pensamento aleatório aparecesse para dar início à programação mental diária. Quinze segundos de silêncio para então ouvir uma criança gritar na rua. Acordou.
A segunda coisa que viu, de fato, foram os chinelos ao lado da cama, esperando por pés pequenos e delicados que os calçassem. Pela primeira vez notou que não gostava deles – ainda assim os calçou, pois o piso era frio e seu corpo recém-desperto estava quente. Pensou que detestava mesmo o menor choque térmico. Levantou.
Contraditoriamente, era a água fria que tocava o seu rosto quando ela começava a passar mentalmente a agenda de dia. Logo seria almoço, pensou, e precisava ir ao mercado, pois não tinha quase comida nos armários da cozinha. Antes disso, precisava ir ao banco, pois não tinha quase dinheiro em sua carteira. E precisava de uma boa quantia, pois, além de ir ao mercado, teria de pagar aquela conta – que, onde estava mesmo? Ah, deveria estar sobre a mesa da sala, sim, lá estava -, e tinha combinado aquele cinema seguido de uma boa conversa num café bacana com o rapaz…o rapaz…uhn, pensava ela, enquanto sentia em lembrança seu gosto, seus toques, suas mãos deslizando suave e gentilmente pelo corpo magro e macio que ela tinha; “o rapaz, uhn…” e toda a agenda parecia não significar nada.
Olhou seu rosto ainda molhado no espelho e decidiu se apressar. Em meia-hora estava dando os últimos goles no café preto e sem açúcar, enquanto colocava a jaqueta e procurava as chaves. Em uma hora estava na quilométrica fila do caixa, olhando para o seu carrinho e tentando lembrar o que supostamente havia esquecido. Sensação de vazio. Quarenta e oito minutos depois, estava em frente aos armários da cozinha novamente, guardando as compras e pensando no quê cozinharia.
A tarde iniciou-se, e, a medida que as horas iam passando, as atividades cotidianas seguiam o ritmo ditado pelas diferentes posições do sol. Às quatro e trinta e sete, assim que ela encaixou a chave certa na fechadura da porta de saída, o celular tocou. Era ele. Não vai dar, ele disse, fiquei preso numa reunião na agência – e o sorriso apressado dela deu lugar a uma expressão que não se pode definir. Desligou o telefone.
Às quatro e quarenta e sete daquela mesmo tarde, deitou-se e olhou para o mesmo teto branco e sentiu-se presa a um enorme ciclo de acontecimentos sem importância que regiam uma vida vazia – a sua. Pela primeira vez na vida, sentiu-se só. Seis minutos depois de constatá-lo, abraçou o travesseiro, pondo-se a chorar louca e desesperadamente por exatos cinqüenta e dois minutos. O teto continuava branco, o celular permanecia mudo, a cabeça, turbilhão.
O sol deu lugar às estrelas; o ar agradável do final da tarde abriu espaço para uma noite fria e desoladora. Olhos inchados, continuava olhando para o teto, a luz apagada.
Às oito e vinte e dois, adormeceu.