Sem tempo e sem açúcar

Saudade da promessa auribranca
dos tempos em que o futuro não era dúvida
a dor não era constante
e a liberdade não era ameaça.

Saudade dos tempos auribrancos
saudade da certeza de ser
notada por aqueles olhos outrora tão atentos
de ouvir e ser ouvida em longos silêncios 
de sentir-te perto e pensar que tudo pode ser bonito
- e que eu estive errada o tempo todo -.

Saudade da época auribranca
em que, em dias cinzas, sob a neblina,
era possível notar um certo casal na próxima esquina
sorrir brevemente
e (só) seguir em frente. 

muralhas do tempo

Um misto de lembranças, sentimentos, impressões e desejos que parece querer fazer migalhas do coração de qualquer um. A cabeça é um turbilhão: nada mais faz sentido quando se sente saudade. Não importam a idade ou as ideias que se tem; saudade não escolhe classe social, influência política ou nível de erudição, não quer promoção nem qualquer brilhante jogada de marketing - o mal dos poetas, dos loucos, dos céticos, dos que queimam queimam queimam sem cessar; o mal dos humanos.

É como se o mundo fizesse de propósito: tudo parece fazer lembrar, vozes ecoam internamente, pensamentos retornam e ri-se sozinho. Ou se chora - choram-se lágrimas sofridas de toda a nostalgia, de todo o sentir e o pesar de que era, do que é e do que há. Então se chora. Sozinho.

O corpo tentar manter-se ocupado, ao passo que a alma grita, sufocada num mar de ilusões e expectativas sangrentas - “e se eu pudesse voltar no tempo?…” -, e, embora incansável a tentativa de esquecer e “deixar para lá”, sabe-se que não existem eufemismos para a dor da perda.

Saudade é um muro de contenção entre o que se foi e o que se é - uma das dores mais profundas, para a qual não existe cura nem suprimentos. O relógio não pára - é preciso seguir. 

-
(agosto de 2010)

cães bípedes me servem de obstáculo
de um sonho místico, acordei num labirinto
correndo, fugindo das chuvas de verão
uma nuvem negra permanece sobre a minha cabeça
eis que um raio atinge meu corpo
e tinge meus cabelos de fogo
o fogo se espalha e
derrete meus planos
queima minhas esperanças
transforma em cinzas toda força (d)e vontade
as cinzas se espalham no céu
e intoxicam a nós, os embriagados,
e transforma cães em seres bípedes
que mijam pela boca
toda vez que tentam emitir alguma opinião válida
e as ruas adquirem cheiro de auroras boreais
enquanto as auroras borram a figura humana - 
presa, agora, num labirinto de pó dos antepassados - 
e só então me sinto apta a descansar. 

exame de consciência (reflexões de cantina)

luz de verão incide
sobre exames médicos
eletrocardiograma relâmpago
e resultados atômicos

setenta e duas horas sem álcool
na boca dos malditos
o vento, a janela
o céu e a grade

redoma de vidro etérea
e o peso sobre os ombros

injeções de ânimo psicossomando
as amarguras d’existência.

no fim das contas,
não há tristeza que não se renda
nem felicidade que seja eterna. 

Três considerações importantes, de vida ou de morte, que não dizem respeito senão a quem as ponderou inicialmente (ou a quem ponderá-las, a partir deste, ainda que a pretensão não seja a de ser o início de uma reflexão em potencial, mas que poderá ser útil a quem interessar possa)

Gostaria de viver enquanto durmo.

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Gostaria de dormir enquanto vivo.

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Quanto mais eu respiro, mais eu sufoco. 

“A noite envolvida no silêncio do seu quarto
antes de dormir você procura o meu retrato
mas da moldura não sou eu quem lhe sorri
mas você vê o meu sorriso mesmo assim
e tudo isso vai fazer você lembrar de mim…”

“I can’t say anymore than ‘I love you’
Everything else is a waste of breath
I want you”

Era dez e vinte e três da manhã, e ela abriu os olhos pela primeira vez naquele dia – mais tarde, naquele mesmo dia, se questionaria o porquê de tê-lo feito. A primeira coisa que viu foi o teto, branco. Não teve reação, apenas fechou os olhos novamente e quis voltar à sensação de conforto da qual o próprio corpo a privou com um simples movimento mecânico. Abriu os olhos e perdeu o chão – mas, naquele momento, nada disso passava pela sua cabeça.

Observou o teto por quinze segundos antes que qualquer pensamento aleatório aparecesse para dar início à programação mental diária. Quinze segundos de silêncio para então ouvir uma criança gritar na rua. Acordou.

A segunda coisa que viu, de fato, foram os chinelos ao lado da cama, esperando por pés pequenos e delicados que os calçassem. Pela primeira vez notou que não gostava deles – ainda assim os calçou, pois o piso era frio e seu corpo recém-desperto estava quente. Pensou que detestava mesmo o menor choque térmico. Levantou.

Contraditoriamente, era a água fria que tocava o seu rosto quando ela começava a passar mentalmente a agenda de dia. Logo seria almoço, pensou, e precisava ir ao mercado, pois não tinha quase comida nos armários da cozinha. Antes disso, precisava ir ao banco, pois não tinha quase dinheiro em sua carteira. E precisava de uma boa quantia, pois, além de ir ao mercado, teria de pagar aquela conta – que, onde estava mesmo? Ah, deveria estar sobre a mesa da sala, sim, lá estava -, e tinha combinado aquele cinema seguido de uma boa conversa num café bacana com o rapaz…o rapaz…uhn, pensava ela, enquanto sentia em lembrança seu gosto, seus toques, suas mãos deslizando suave e gentilmente pelo corpo magro e macio que ela tinha; “o rapaz, uhn…” e toda a agenda parecia não significar nada.

Olhou seu rosto ainda molhado no espelho e decidiu se apressar. Em meia-hora estava dando os últimos goles no café preto e sem açúcar, enquanto colocava a jaqueta e procurava as chaves. Em uma hora estava na quilométrica fila do caixa, olhando para o seu carrinho e tentando lembrar o que supostamente havia esquecido. Sensação de vazio. Quarenta e oito minutos depois, estava em frente aos armários da cozinha novamente, guardando as compras e pensando no quê cozinharia.

A tarde iniciou-se, e, a medida que as horas iam passando, as atividades cotidianas seguiam o ritmo ditado pelas diferentes posições do sol. Às quatro e trinta e sete, assim que ela encaixou a chave certa na fechadura da porta de saída, o celular tocou. Era ele. Não vai dar, ele disse, fiquei preso numa reunião na agência – e o sorriso apressado dela deu lugar a uma expressão que não se pode definir. Desligou o telefone.

Às quatro e quarenta e sete daquela mesmo tarde, deitou-se e olhou para o mesmo teto branco e sentiu-se presa a um enorme ciclo de acontecimentos sem importância que regiam uma vida vazia – a sua. Pela primeira vez na vida, sentiu-se só. Seis minutos depois de constatá-lo, abraçou o travesseiro, pondo-se a chorar louca e desesperadamente por exatos cinqüenta e dois minutos. O teto continuava branco, o celular permanecia mudo, a cabeça, turbilhão.

O sol deu lugar às estrelas; o ar agradável do final da tarde abriu espaço para uma noite fria e desoladora. Olhos inchados, continuava olhando para o teto, a luz apagada.

Às oito e vinte e dois, adormeceu.

Aproximadamente às 14h daquela bela quinta-feira ensolarada, sentou-se à máquina de escrever. Dias atrás ele estaria batendo ideias violentamente, e os tac tac tacs trimmss da vida ritmavam o jorro de palavras articuladas pelos seus frenéticos pensamentos. Nada escapava de sua visão onipotente e onipresente de escritor. Mas agora nem mesmo o barulho dos carros lá fora passava despercebido. Olhou para as teclas; nada veio. Pensou ser melhor então escrever manualmente; escolheu sua caneta preferida, usada em momentos de inspiração especial – uma bic simples, ponta média, macia, tinta azul escuro. Deslizava no fluxo do pensamento. Mas não hoje, ele descobriria após quinze minutos olhando pela janela com o bloco de anotações em mãos e a caneta a postos.

Sentiu-se angustiado.

Resolver andar pelas quadras próximas, que era para ver se as ideias vinham. Sentou-se no banco da praça, jogou xadrez com os velhos que lá investiam o tempo livre, leu pelo menos dois jornais inteiros; viu as crianças brincarem no parquinho e as mães e babás com suas caras de tédio. Observou pessoas apressadas passarem, ônibus pararem a cada cinco minutos, pessoas, objetos, animais de toda a sorte e indefinições materiais zigue-zagueando como se o fim estivesse próximo.

Sentiu-se preparado.

Voltou para casa o mais rápido que pôde, sentou-se novamente à máquina e posicionou os dedos: nada. Fechou os olhos por exatos três segundos enquanto respirava fundo. Abriu os olhos e esticou as mãos. Sentia que o bloqueio criativo da última crônica da primeira publicação marcaria o ser fim enquanto escritor antes mesmo que ele pudesse descobrir ao certo qual era o seu estilo. Passara a semana anotando frases, construindo idéias, juntando diálogos aqui e ali para poder escrever aquela crônica que completaria a compilação de textos seus a ser lançada nos próximos meses. O prazo pra entrega vencia na sexta-feira.

Resolveu dormir e esquecer um pouco toda a pressão.

Acordou novamente às três e cinqüenta e dois da madrugada. Não conseguia acreditar no coma do qual acabara de acordar.

Decidiu não pensar nisso. Levantou e foi à cozinha pegar um café. Sentia-se desprotegido, impotente; sem chão e sem ar. Repentinamente, tudo ao seu redor parecia ter enegrecido fortemente. Sentiu como se todo o sangue de seu corpo tivesse sido retirado de uma vez só, sem possibilidade de reação. Imediato. O coração começou a bater furiosamente. Em quarenta e oito primaveras já vividas, nunca havia se sentido tão mal.

Caiu.

O primeiro sinal de ideia vinha com a sensação de iluminação súbita que, pensou, só poderia ser um holofote divino jorrando raios de luz branca intensa sob sua cabeça, mas a ideia lhe sumiu da lembrança assim que notou que a luz vinha da geladeira - que havia aberto sem motivo aparente cerca de onze segundo antes da queda -. Seu corpo começava a se resfriar, seu peito doía, e ele não sabia se a dor tinha motivos físicos ou emocionais, mas a sentia – sentia como se uma navalha extremamente afiada estivesse cortando gentilmente suas carnes e atravessando seu coração. Achou a dor bastante poética. Pensou em escrever sobre, assim que melhorasse.

Mas, repentinamente, a luz apagou.

Meses depois, pouco antes de completar seus quarenta e nove anos, sem filhos ou árvores plantadas, teve a primeira edição da primeira e única obra publicada - póstuma e incompleta.

texto agridoce sobre as mais belas flores medonhas que a autora já viu.

Café com leite
de rosas.

Rosas defumadas no
Purê de rosas da
dona Rosa.
Doce de rosas vermelhas
recheando o
pastel de rosa branca do
ROSA, Guimarães. 
Tudo se mistura no
mingau de rosas -
de manga rosa! -
E o céu, 
cor-de-rosa-murcha.

Abro as portas da
recepção
e espanto oportunidades
com um enjôo.

(E, atrás do biombo,
o vômito seco de
pétalas vermelho-sangue.)